
Para celebrar seus 35 anos de história, a Lenny Niemeyer convidou o designer de joias Carlos Penna para criar os acessórios do desfile comemorativo no Rio Fashion Week. A colab nasceu a partir do conceito Trama do Tempo, que revisita a trajetória da marca e propõe um olhar sobre a relação entre memória, presente e futuro.
Com uma linguagem que combina joalheria escultural, trabalho artesanal e formas marcantes, Carlos Penna desenvolveu peças que traduzem o encontro entre sua identidade criativa e o DNA atemporal da Lenny. Agora, três acessórios que marcaram a passarela chegam às lojas em edição limitada, reafirmando o caráter de arte vestível de suas criações.
Nesta entrevista, Carlos Penna compartilha as referências, os caminhos criativos e os detalhes por trás da colaboração, além de falar sobre o encontro entre design, joalheria e moda na construção de peças que atravessam o tempo.
Seu trabalho combina uma abordagem escultural com técnicas artesanais. Quais referências, materiais ou formas despertam seu interesse durante o processo de criação e como elas se transformam em joias?
Meu olhar é muito atravessado pelo cotidiano. Um objeto comum, uma forma na arquitetura, uma textura ou um gesto podem despertar uma ideia. Gosto de perceber o potencial de algo que, à primeira vista, talvez não fosse pensado como joia.
O metal é uma presença forte no meu trabalho, mas também me interessam materiais que provocam outras sensações, como silicone, couro, fibras e tecidos. A criação acontece nesse encontro entre a ideia e a experimentação manual. Eu testo, dobro, monto, desmonto. Às vezes, o material responde de um jeito diferente do que imaginei e é justamente ali que descubro um
caminho. O corpo participa de todo esse processo: a peça precisa ter presença, mas também encontrar seu movimento e seu lugar em quem a veste.

Como você interpretou o conceito Trama do Tempo e o traduziu para as peças criadas especialmente para o desfile?
O que mais me interessa nesse conceito é pensar que o tempo se constrói por sobreposições. Carregamos memórias, mas estamos sempre transformando essas referências a partir do que vivemos no presente.
Minha leitura para os acessórios parte desse encontro entre o fazer artesanal e uma linguagem contemporânea. O trabalho manual guarda um tempo próprio: o da tentativa, da repetição e da descoberta. Ao mesmo tempo, busco formas que abram novas possibilidades para o corpo. Quis que as peças participassem dessa narrativa junto às roupas, criando uma relação entre matéria,
movimento e memória.
Como foi encontrar um ponto de encontro entre a sua identidade e o DNA da Lenny Niemeyer? O que mudou ao adaptar as peças da passarela para o cotidiano?
Vejo esse encontro na relação com o corpo e na liberdade das formas. A Lenny tem uma maneira muito própria de trabalhar fluidez, elegância e movimento. Eu me aproximo desse universo com a presença escultural dos acessórios e com a investigação dos materiais. É uma troca em que cada linguagem encontra espaço dentro da outra.
Na passagem da passarela para as três peças em edição limitada, o desafio é preservar a força da criação e aproximá-la de outros momentos de uso. O olhar se volta ainda mais para proporção, peso, conforto e acabamento. Quero que a peça mantenha sua personalidade e que cada pessoa encontre uma maneira própria de usá-la, inclusive nas situações mais simples do dia.

Existe algum lugar, encontro ou experiência que tenha marcado seu olhar como designer e que ainda hoje se manifeste no seu trabalho?
Minas Gerais é uma presença muito forte no meu olhar. Existe uma relação com o fazer manual, com a matéria e com a capacidade de transformar o que está por perto que reconheço no meu processo. Isso aparece tanto na minha curiosidade pelos materiais quanto na importância que dou à produção e às pessoas que fazem as peças comigo.
O contato com a fábrica em Ipatinga também alimenta muito a criação. Uma conversa, uma dificuldade técnica ou uma solução encontrada em conjunto podem mudar uma ideia inteira. As viagens ampliam meu repertório, mas é nesse encontro entre o que vejo fora e o que construí aqui que meu trabalho ganha uma linguagem própria.